terça-feira, 12 de setembro de 2006

O ASNO E O CAVALO LOUÇÃO

Em este exemplo o poeta diz, dando a nós exemplo, e conta que um asno andava per um caminho estreito, carregado, e encontrou com um cavalo mui fremoso, o qual andava loução, porque trazia mui fremoso freio, sela, retrancas e peitoral.
O asno disse ao cavalo:
- Senhor, Deus te mantenha!
O cavalo, com grande soberba, começou a dizer muita vilania ao asno, dizendo:
- Ó astroso vilão, como hás tu tanto ardir de falar e de te parares no caminho per onde hei-de andar? Tu cada dia carretas vinho e lenha e outras cousas lixosas em cima dos teus lombos e trazes albarda; e eu trago o meu senhor honradamente em cima de mim e trago sela dourada, freio, retrancas mui preçadas. Eu te digo que, se nom fosse que eu nom quero em ti luxar os meus couces, que eu te faria que nunca houvesse ardimento de falar a tão nobre cavalo como eu sou! Vai, e nom te veja eu mais passar per onde eu estever!
O asno nom ousava de falar e partiu-se com vergonça.
Dali a pouco tempo, o cavalo emagreceu e o seu senhor o meteu à carreta; e, pelo grande afam que o cavalo suportava, veio a ser mui magro. E, um dia, aquele asno o encontrou no caminho e conheceu-o mui bem e disse-lhe:
- Ó cavalo, rogo-te que me digas onde é a tua sela e o teu fremoso guarnimento. Tu soías ser mui gordo! Ora te vejo mui magro!
E per estas palavras escarnecia o asno do cavalo. O cavalo, pela grã vergonça que havia, nom falava e partiu-se com vergonça.
Per este exemplo, este poeta nos amostra que nós nom hajamos fé nem esperanças nas vãs glórias deste mundo, porque nom som estáveis; e o homem que está em prosperidade em este mundo nom deve escarnecer do minguado, porque, quando se nom precatar, ele pode vir em miséria, e o minguado em prosperidade, segundo vemos em cada dia.

(Fábula XXIX)
(Manuscrito descoberto, em 1900, na BibliotecaPalatina de Viena de Áustria, por José Leite de Vasconcelos, que o publicou na Revista Lusitana, vols. VIII e IX, 1903-1905 e 1906. Título original: Fabulae Aesopi in lingua lusitana.)
Notas:
P. 137
-exemplo: narração de um caso particular que serve de lição. ( No texto, lê-se emxemplo)
-loução: garboso -c
omeçouc: no texto, compeçou. -vilania: insultos. -astroso: infeliz, funesto. -ardir: ardimento, atrevimento. -preçadas: prezadas. -luxar: sujar, manchar. -vergonça: vergonha. -carreta: carroça. -afam: cansaço. -guarnimento: enfeite, arreio. -minguado: pobre, desditoso. -precatar: acautelar, prevenir.

Extraída do livro: Poesia e Prosa medievais, selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira

2 comentários:

Asno disse...

Obrigado por te lembrares mim querida findamina!

Penalva disse...

alguem me traduz isto?
nao percebi nada de nada.


"abaixo os nik's e os anonymous"


Penalva